“Terramotos de gelo” como forma de prever o degelo

Uma das causas do degelo da Antártida são as alterações climáticas, mas o mecanismo ainda não é bem conhecido. Em 2002, o colapso da plataforma de gelo Larsen B apanhou os glaciologistas de surpresa, tornando-se assim um ponto de partida para estes tentarem entender melhor este problema. Compreender estes mecanismos pode ajudar os cientistas a prever o comportamento futuro do gelo e perceber qual o papel que este pode desempenhar no perda e quebra do gelo.

Cientistas Grant Macdonald e Phillip Chung colocam um sismógrafo na plataforma de gelo McMurdo. (Foto: Alison Banwell/U. Chicago)

Para compreender estes mecanismos, são necessários métodos para observar o degelo superficial e subsuperficial. Por exemplo, o colapso da plataforma de gelo Larsen B em 2002 foi precedido por uma expressão superficial bem desenvolvida da água derretida, mas o colapso da plataforma de gelo Wilkins em 2008 foi precedido pela água abaixo da superfície que permitiu uma hidrofratura da plataforma.

O objetivo deste estudo foi determinar se a resposta fratura da plataforma de gelo estava associada com a drenagem de águas superficiais e descobrir quais são os sinais sísmicos que estão associados à movimentação da água. Para se realizar este estudo, estes cientistas colocaram sismogramas ao longo de um período de 3 anos, de 2015 a 2017, e conduziram um estudo de superfície da água derretida superficial na plataforma de gelo de McMurdo (McMIS), na Antártida.

Localização dos sismógrafos na plataforma de gelo de McMurdo.

Os cientistas descobriram que existia um ciclo diurno de sismicidade, sendo constituído por centenas de milhares de pequenos tremores de gelo, numa área onde há derretimento subsuperficial substancial. Este ciclo pode ser explicado pela flexão e fratura termicamente induzida de uma superfície congelada suportada pela penetração e absorção da radiação solar.

Os resultados deste estudo sugerem que as ondas sísmicas criadas pela fusão podem ser úteis na monitorização do derretimento subsuperficial, de uma maneira que complementa outros métodos já usados como deteção remota. Como existe um ciclo de sismicidade, os cientistas podem testá-lo, idealizando um modelo computacional térmico da plataforma de gelo, e simular o desenvolvimento de camadas de fundição parcial subsuperficiais e assim conseguir de alguma forma prever o comportamento futuro do gelo.

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Fonte: MacAyeal, D. R., Banwell, A. F., Okal, E. A., Lin, J., Willis, I. C., Goodsell, B., & MacDonald, G. J. (2018). Diurnal seismicity cycle linked to subsurface melting on an ice shelf. Annals of Glaciology, 1-21. doi: 10.1017/aog.2018.29

Autor: Hugo Guímaro

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