O regime térmico do solo é controlado pelo relevo e pela cobertura de neve nas áreas livres de gelo da Antártida Marítima

Sabias que as áreas livres de gelo da Antártida escondem um mundo complexo debaixo dos nossos pés? Lá, o solo não fica inerte, congela e descongela segundo padrões controlados pela própria paisagem. Compreender o regime térmico do solo é fundamental para estudar o permafrost, prever mudanças ambientais e até mesmo entender como as alterações climáticas estão a afetar a Antártida!

Uma equipa liderada por uma investigadora portuguesa estudou as temperaturas do solo na Península de Barton (Península Antártica), onde estas áreas livres de gelo se encontram distribuídas ao longo de vertentes rochosas e entre mantos de neve. A equipa instalou pequenos sensores de temperatura chamados iButtons a diferentes altitudes e condições (em vertentes, perto de mantos de neve, etc.), que registam as temperaturas do solo a cada três horas durante um ano inteiro. Através da análise dos dados, a equipa percebeu quais os fatores que controlam o regime térmico do solo.

Então, o que descobriram? A altitude revelou-se como o principal fator: quanto mais alto se sobe, mais frio fica o solo, apresentando temperaturas médias anuais pouco acima do ponto de congelação em setores de menor elevação, e abaixo dos -2ºC em locais mais altos. A cobertura de neve também desempenha um papel importante, agindo como um cobertor natural: as áreas com neve mais duradoura tiveram estações de congelamento mais longas e um aquecimento mais lento. Até a forma do terreno e a quantidade de luz solar que sobre ele incide influenciaram a temperatura do solo.

A equipa identificou 7 regimes diários de temperatura do solo, encontrando-se alguns congelados durante todo o dia, outros completamente descongelados e outros com variações entre o estado de congelação e descongelação. Baseada nesta variação, a equipa classificou a área em 4 tipos de regime térmico anual, variando entre longas estações de geada próximo a mantos de neve, e curtas estações de geada com rápido aquecimento em setores de menor altitude. A equipa criou ainda um modelo que permite mapear estes padrões em toda a Península com 90% de certeza. 

Mas porque é que isto é importante? Bem, estes resultados mostram o quanto as temperaturas do solo são sensíveis a pequenas mudanças de relevo e cobertura de neve, algo importante não apenas para compreender o regime térmico do permafrost na Antártida, mas também para prever como este regime pode responder às alterações climáticas. Em outras palavras, mesmo pequenos detalhes na paisagem podem impactar substancialmente o solo debaixo dos nossos pés!


Fonte: Baptista, J., Vieira, G., & Lee, H. (2024). Ground surface temperature regimes are controlled by the topography and snow cover in the ice-free areas of Maritime Antarctica. Catena, 240, 107947

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