A lenda do “Kraken” não é totalmente falsa. Nas profundezas do Oceano Antárctico encontra-se o refúgio de uma criatura semelhante em tamanho e aparência ao mito. A lula colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni). Pouco se conhece acerca deste animal, mas este é suficiente para fascinar o leitor.
A lula colossal é conhecida como o maior invertebrado do nosso planeta em termos de massa (495 kg), e o segunda maior em comprimento (a lula gigante fica com o primeiro lugar). As espécies de lulas mais próximas desta lula são seres muito frágeis e transparentes, conhecidos pelo cognome de “lulas-de-vidro” não ultrapassando o par de dezena de centímetros, assemelhando-se a sacos de plástico ou alforrecas (medusas), em tudo diferente à M. hamiltoni, um animal de grande porte, com músculos bem desenvolvidos e garras/anzóis a saírem das ventosas nos tentáculos. Mas têm em comum o facto de possuírem uma câmara para flutuação [1] e a presença de fotóforos [2].
Apesar da aparência, estes animais servem de refeição a outros no Oceano Antárctico, como é o caso de Albatrozes, cetáceos e ainda peixes. Os albatrozes, aves marinhas que podem pesar até 9 kgs e mergulhar até 20 metros de profundidade são um predador (no mínimo) caricato para um animal de meia tonelada que vive até 2500 metros abaixo da superfície. O mais provável é que estas aves, tal como abutres do Oceano, alimentem-se de lulas já mortas (ou moribundas) que acabam por flutuar à superfície. Os cetáceos parecem ser o predador menos surpreendente, já que muitas vezes imagina-se na ficção lutas entres cachalotes e este animais. Finalmente, temos os peixes, mais precisamente a espécie Dissostichus mawsoni (bacalhau antártico), que se envolvem em predação mutua (peixe–>lula e lula–>peixe) como que um duelo alien (Lula) vs. predador (peixe).

[1] com a mesma função que uma bexiga natatória
[2] órgãos que emitem luz
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Fonte: Rosa, R., Lopes, V.M., Guerreiro, M., Bolstad, K. and Xavier, J.C., 2017. Biology and ecology of the world’s largest invertebrate, the colossal squid (Mesonychoteuthis hamiltoni): a short review. Polar Biology, pp.1-13. doi: 10.1007/s00300-017-2104-5
Autor: Miguel Guerreiro
