Elementos-traço nos solos das áreas livres de gelo da Antártida: Perspetivas sobre os valores geoquímicos naturais, o impacto antropogénico e a possível remobilização associada ao degelo do permafrost

As áreas livres de gelo da Antártida representam menos de 0,5% da superfície do continente, mas concentram praticamente toda a biodiversidade terrestre e a maioria das infraestruturas humanas, como estações científicas e antigas áreas de atividade antrópica. Estas regiões são, simultaneamente, ecologicamente sensíveis e particularmente vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas.

Neste estudo, os investigadores realizaram uma revisão abrangente dos elementos-traço nos solos das áreas livres de gelo da Antártida, analisando concentrações em zonas pristinas e em áreas com influência humana, com especial atenção ao impacto do degelo do permafrost na sua mobilização. A Antártida foi organizada em seis regiões com características climáticas e ambientais semelhantes, permitindo comparar resultados, distinguir origens naturais e antropogénicas dos contaminantes e identificar áreas vulneráveis que necessitam de monitorização futura.

Os resultados mostraram que a camada ativa do permafrost controla a acumulação e mobilidade de elementos-traço nos solos antárticos e que o degelo do permafrost, associado às alterações climáticas, pode remobilizar contaminantes previamente retidos, aumentando a sua disponibilidade ambiental.

Os resultados revelaram ainda que as concentrações de elementos como Hg, Pb, Cd, Cu, Cr e Ni resultam tanto de fontes naturais como de fontes antropogénicas.
Nas Ilhas Shetland do Sul, sobretudo na King George Island, registam-se valores mais elevados perto de estações científicas, resíduos, derrames de combustível e outras infraestruturas humanas, já por exemplo, em Deception Island, a atividade vulcânica origina concentrações naturalmente elevadas de Hg e As, podendo o permafrost funcionar como reservatório temporário destes elementos (Fig.1). Os investigadores reportam também que a retração glaciar, o aumento da espessura da camada ativa e a degradação do permafrost estão a alterar a dinâmica hidrológica e o transporte de contaminantes.

A combinação entre pressão humana e as alterações climáticas representam um risco crescente para os ecossistemas terrestres e costeiros, exigindo monitorização contínua.

Figura 1: Locais nas Ilhas Shetland do Sul com valores reportados de concentrações de elementos-traço. Os pontos vermelhos representam áreas onde as concentrações de elementos-traço são influenciadas por impacto antropogénico, enquanto os pontos verdes refletem concentrações naturais.

Fonte: Zilhão, H., Cesário, R., Vieira, G. & Canário, J. (2025). Trace elements in soils of the Antarctic ice-free areas: Insights on natural geochemical values, anthropogenic impact and possible remobilisation upon permafrost thaw. Earth-Science Reviews, 268.

Autor: Diana Vaz

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